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Feracidades da imagem:

notas para um pensamento crítico feminista sobre o cinema

Ao longo de uma semana repensando as possibilidades de crítica fílmica sob um ponto de vista feminista, sentimos a necessidade de nos posicionarmos acerca do discurso que se costuma criar para justificar a circulação de algumas imagens já saturadas na iconografia da história do audiovisual.

 

No contexto que atravessamos em nosso país hoje, vê-se um cinema que se descentraliza a partir de falas de sujeitos que por um longo tempo foram 'falados'. O peso estético e político que essas falas implicam não podem ser minimizados.

 

Não sendo justo, portanto, que festivais de cinema continuem afagando a cabeça de diretores e produtores que insistem, por exemplo, em retratar negros como estupradores, ou mulheres como objetos inanimados, tendo como justificativa um certo padrão de ideal estético, como se a estética mesma não fosse atravessada de decisões políticas. 
 

É urgente que haja uma oxigenação na forma de pensar não somente sobre o cinema, mas também com o cinema. Algumas das reflexões mais engenhosas da história dessa arte demarcaram momentos importantes da nossa própria história, mas ficaram obsoletas perante o tempo. Um dos exemplos básicos disso é que não precisamos mais de equipamentos caríssimos e altas produções para produzirmos material cinematográfico de qualidade. Percebendo isso, provocamos: que tipo de filme revela um “cinema adequado”?

 

Essa e algumas outras inquietações nos levaram a formular esse texto atravessado de desejos que compartilhamos quando pensamos no quão vasto pode ser o cinema.

 

Sobre imagens que nos movem e nos tiram do lugar

Queremos ver mais imagens que apresentem diversidade de corpos, sem reforçar os estereótipos eurocentrados e que sejam, sobretudo, emancipadas de um pressuposto espectador masculino.

 

No campo imagético do cinema LGBTQ+, que os afetos lésbicos, bissexuais, trans e gays existam e que não sejam construídos/reforçados por um olhar heteronormativo.

 

Precisamos e queremos expandir o imaginário sobre narrativas negras revelando as particularidades de suas personagens sem que suas trajetórias sejam reduzidas a uma identidade universal que sirva às expectativas de um olhar colonizador.

 

Que as realizações audiovisuais surpreendam pelas experimentações linguísticas, cinematográficas e poéticas, sem com isso eliminar as possibilidades e potências políticas do seu discurso e que, nessas infinitas possibilidades estéticas, revelem também novas leituras sobre a realidade.

 

Queremos, aliás, que a realidade seja um território de fabulação e delírio. Que aquilo que conhecemos como real possa ser reinventado a partir de imaginários desejados e não apenas de imaginários dominados.


Sobre imagens que não vão mais passar batidas

Não é possível mais nos submetermos a narrativas que reforcem estereótipos machistas, misóginos, racistas e lgbtfóbicos nas telas, narrativas naturalizadas e nunca problematizadas em nome do “cinema”. O cinema não pode existir em detrimento da dignidade humana.

 

Se torna cada vez mais impossível não questionar personagens femininas retratadas sem profundidade alguma nos filmes, usadas apenas como uma paisagem para contemplação do olhar masculino.

 

Estamos atentas à manutenção de construções narrativas que esvaziam as várias possibilidades afetivas da comunidade LBGTQ+ ao padronizar essas relações segundo pressupostos heteronormativos.

 

Não passarão incólumes filmes sem nenhuma responsabilidade histórica, que incitam todo e qualquer tipo de violência, preconceito ou discriminação às mulheres, ao povo negro, indígena e LGBTQ+.

 

Vamos questionar sempre que assistirmos a personagens negras e negros condicionadas e condicionados somente a papéis subalternizados e sem agenciamento sobre suas próprias histórias.

 

Sobre as potências da crítica

 

A crítica pode:
 

Proporcionar a reinvenção do fazer cinematográfico e ser por ele reinventado.

 

Registrar o desenvolvimento do movimento cinematográfico como arte e indústria, observando as obras através das imagens que elas revelam e de tudo aquilo que pode amplificar essas imagens: sejam estudos sobre a própria linguagem cinematográfica, sejam perspectivas diversas vindas do campo do pensamento político, filosófico, sociológico, psicanalítico, entre outros.

 

Prolongar no espectador a experiência do filme, tendo a sensibilidade de orquestrar linguagem, temas, o mundo ao redor e os sentimentos dos que passam diante da tela do cinema. Fomentando um discurso paralelo à obra, dialogando ou entrando em confronto com a autora/autor e suas imagens, sem necessariamente chegar a acordos.

 

Abrir o espaço do dissenso, e não do consenso. Criticar é fazer do incerto, do inseguro e do inquieto um ambiente de elaboração do pensamento. É poder criar olhar opositivo, como diria bell hooks, diante das imagens e sentir prazer no enfrentamento a elas. 
 

Criticar também é tensionar as linhas divisórias entre conteúdo e a forma (o que é apresentado e como é apresentado) nos filmes, e observar igualmente quando essas linhas se diluem, proporcionando outra aproximação com o cinema.

 

Perceber a crítica como um produto que pode, ele mesmo, se reinventar na forma como se apresenta, podendo também quebrar padrões do que se espera de uma organização textual, visual ou auditiva com a qual estamos acostumadas a lidar.

 

É cada vez mais urgente que a crítica, para além de entrar no corpo a corpo com os próprios filmes (e por corpo estamos implicando o pensamento que corre por ele), exerça também um olhar sobre os processos de curadoria dos festivais de cinema.

Sobre processos de curadoria

O poder de selecionar e escolher o que se vê é um que exige responsabilidade sobre as imagens que nos movem ou que nos imobilizam.

Uma curadoria pode e deve discutir as especificidades da linguagem cinematográfica sem ser eticamente irresponsável com as imagens que seleciona.

Pode e deve questionar essencialismos facilmente cooptáveis sobre o que deveria, para o sono tranquilo do sujeito hegemônico, ser um “cinema feminista” ou um “cinema negro” ou um “cinema LGBTQ+”, como se estes fossem blocos uniformes e imóveis.

 

Leia-se: é preciso lutar por um cinema feminista, um cinema negro e um cinema LGBTQ+ que existam em todas as infinitas variáveis que as experiências coletivas desses grupos podem oferecer, e não condicioná-los a um desejo de respostas fáceis sobre o que é ser mulher, negro ou LGBTQ+ como um contraponto a um cinema que parece ser mais cinema porque não vem marcado por suas especificidades: branco, masculino, heterossexual…

Não nos interessa processos curatoriais em que a figura de uma mulher ou de uma pessoa negra, indígena ou LGBTQ+ sejam usadas apenas como um “escudo ético”.

Não nos interessa processos curatoriais em que todas essas pessoas sirvam como uma “cota” a ser cumprida, em lugar de um genuíno interesse por processos revisão sobre possibilidades estéticas do cinema e descolonização do olhar.

Em tempo, também não nos interessa processos de seleção de curadorias, júris, comissões de avaliação de fundos e editais sem pensar primeiramente em paridade de gênero e raça nesses grupos.

 

Assinado: Mulheres da oficina de crítica de cinema da Fera